Doce sonho?

Acordo no meio da noite, no momento em que o silêncio me agarra pelos ombros e me cobre de afetos que já não sei partilhar.
Pede-me que esqueça os limites do que sou e me desloque no nascer do acaso, ao longo das fragâncias doces do instante, e me desgarre do avesso de mim mesma, envolvendo-me nos meus próprios desejos.
No primeiro instante não entendo este pedido.
Confundo o silêncio com a escuridão e agarro-me com todas as minhas forças aos restos do cetim dos lençóis, procurando-lhes a maciez e a frescura.
As vestes do meu leito oferecem-me segurança ao tempo que o silêncio me abraça e me conduz em busca do que desconheço.
Permaneço, por instantes, quieta, o olhar fixo no nada, no negro, mas ao compasso do habituar das minhas íris à ausência de luz começo a descobrir os contornos.
Não os do meu quarto... antes os de um mundo a que não sei por onde cheguei, nem quando.
Nem tão pouco sei se estou.
Num mundo tão cruel como esse em que vivemos é, por vezes, necessário acrescentar-lhe um pouco de açúcar.
Só assim conseguimos ultrapassar as dificuldades dessa imensa escuridão.
Sei apenas que estou plena de mim.
Aos poucos, perco o domínio dos meus braços, que se erguem devagar, ao ritmo do perder do medo.
Agrada-me a espera do acreditar em mim mesma, ainda que transborde de consciência do quanto me poderei sentir só.
Sinto nos lábios o aflorar de um sorriso e deixo que me invada o querer...
Nada pode agora levar-me ...
...absolutamente nada!


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